Manjar dos deuses

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MANJAR DOS DEUSES

maria helena sleutjes

Aí, vem o tempo de agora
enganoso
sorrateiro
polindo as arestas
acertando as contas
cavando a terra
colhendo pitangas
deslizando pelas encostas
trazendo chuvas…
Amor
amoras
ambrosia
na ponta da língua
mel de cana caiana.

CONDIÇÃO

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Ninguém poderá povoar
o vazio de você.
Acabo
apagando a luz,
abrindo as janelas,
e o vento da noite
sopra sobre o oceano.
Sou com as ondas
abstração
sopro
interjeição
sombra.

Maria Helena Sleutjes

PAPOS e IDEIAS com Fernando Fiorese

Com um número expressivo de escritores e amigos da literatura,  aconteceu ontem (08-10-2014) na LIVRARIA SARAIVA de Juiz de Fora mais um encontro. Conversei com o escritor juiz-forano FERNANDO FIORESE.

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Dentre os presentes estava o escritor Dilermando Rocha, presidente da Academia Juiz-forana de Letras; o jornalista Rodrigo Almeida, editor do Ilustrada, caderno literário da Folha de São Paulo; a escritora Maria Helena Oliveira, presidente da Academia de Letras da Manchester Mineira, as escritoras Lazara Papandrea e Leila Barbosa, coordenadoras do meu querido grupo, o Café com Poesia ( e Arte); o escritor Wanderley de Oliveira, presidente da Associação de Cultura Luso Brasileira: o escritor Antônio Isair da Silva, editor do Jornal do Poeta.

Lamentando a ausência do escritor Iacyr Anderson Freitas, que infelizmente não pode comparecer por problemas de saúde, passamos a apresentação inicial do nosso convidado. Tarefa difícil em virtude do vasto currículo, que procurei sintetizar ao máximo para que pudéssemos ouvi-lo por mais tempo:

Seu nome completo é FERNANDO FABIO FIORESE FURTADO, natural de Pirapitinga – MG.
É graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela UFJF. Mestre em comunicação e Doutor em Ciência da Literatura/Semiologia pela UFRJ.
Escritor, poeta, e professor do Departamento de Letras da UFJF.

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Sua produção literária é muito grande e importante, e ele vem publicando sistematicamente desde 1980, vejam:

1980 – publica Abre alas e a revista D’Lira
1982 – publica “Leia, não é cartomante”.
1985 – Exercícios de vertigem & outros poemas.
1990 – Publica “Ossário do mito”
2000 – “Dançar o nome” ( lindo trabalho. Trata-se de uma antologia com poemas do Fiorese, Iacyr e Edmilson, acomapanhada por um cd, onde eles mesmos falam alguns de seus poemas)
2002 – “Corpo portátil”.
2003 - publica “Dicionário mínimo: poemas em prosa, e “Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito“.
2008 - “Um dia, um trem”.
2010 – Um livro de contos - “Aconselho-te crueldade
E está a caminho, seu primeiro romance - “Um chão de presas fáceis“, contemplado no Programa Cultural da Petrobrás.
Fernando Fiorese recebeu inúmeros prêmios e participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior.

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Num clima de muita descontração, ele respondeu as minhas indagações com completa maestria. Brincou com aspectos de sua vida, falou da sua amizade com os poetas Iacyr Anderson Freitas e Edmilson Pereira, brincou com as amigas e colegas, professoras da UFJF, Leila Barbosa e Marisa Timponi, falou sobre as questões do tempo, da vida, do ato de escrever…

Depois passamos ao debate sobre o pensamento de Murilo Mendes: “Ainda não estamos acostumados com o mundo. Nascer é muito comprido”.

Fiorese abriu o debate com um poema incrível do João Cabral de Melo Neto que infelizmente não fiquei com a cópia. Um momento muito marcante.

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Foi seguido por Rosangela Rossi que havia acabado de registrar suas palavras no seu celular e passou a comunica-las:

“A cada dia, a cada minuto nascemos no tempo do vir a ser. O mundo existencial nos surpreende em seu eterno caos. Como Seres cósmicos muitas vezes não nos habituamos com este mundo em frenética transição. Não nos habituamos com tamanho egoísmo da maioria, desejo de poder e vaidade, orgulho e inveja sem limites, desrespeito a singularidade e mais que tudo o desamor. Apesar dos desandos…e do caos….Nascer realmente é muito comprido… Pois a sucessão das surpresas nos toma, nos devora, nos assanha, nos encanta e desencanta e nos faz sempre neófitos. Nada sabemos, vamos nascendo e sendo eternos aprendizes. O espanto frente este viver é que nos faz querer sempre mais viver. O caos tem seus instantes movimentos dialéticos entre o prazer e desprazer, luz e sombra, alegria e dor. E que bom que não nos habituemos, pois o hábito é morte e rotina, normopatia da mediocridade. Bom mesmo é renascer a cada amanhecer na eterna surpresa de que é o viver. Por isto que seja sempre comprido o nosso nascer e que cada instante seja poesia, gozo e celebração! Valeu poeta Murilo Mendes por esta pérola filosófica que me fez pensar , respirar e continuar nascendo na grande novidade que é viver!”

Leila Barbosa, especialista e pesquisadora de Murilo Mendes nos trouxe o próprio Murilo a explicar seu aforismo.

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Alessandra Branco também nos trouxe a sua contribuição.

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Fernando Fiorese fechou o debate deste tema que, como ele mesmo disse, nunca se fecha, nos levando a refletir sobre o existir e as diversas configurações do nascer/morrer.

Ficamos assim, mais ricos, mais humanos, mais felizes.

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Agradeço a Livraria Saraiva na pessoa de Mariana Reis e Igor Santos o apoio de sempre.

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Um agradecimento especial a querida amiga Ana Miranda, companheira de longos anos no Café com Poesia ( e Arte), que esteve comigo neste evento sendo  braço direito, braço esquerdo, olhos e atenção constante.

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                                                                 FOI ASSIM!!!

 

 

Uma miragem chamada INHOTIM

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Quando cheguei a INHOTIM pensei:

- Por que o homem construiu o mundo do trabalho, o Estado, o mercado, as cidades poluídas, a economia, o dinheiro?

Por que não fez nascer milhares de INHOTINS pelo planeta?

INHOTIM  é o nome do maior espaço a céu aberto de  exposições de arte contemporânea, que fica ao lado da cidade de Brumadinho em Minas Gerias.

O nome é uma junção de INHÔ + TIM =  Senhor Tim ( de Timoty). Denominação dada pelos colonos ao primeiro dono dessas terras. Com 130 hectares, a visitação está organizada por setores. Setor Rosa, Setor Amarelo e Setor Laranja. Todos devidamente sinalizados cujo percurso é auxiliado por carrinhos, com rotas e pontos de embrarque e desembarque.

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INHOTIM é um templo para explorar a paisagem interna de seus visitantes.  Nós, seres da superfície, aprisionados na mesquinharia que nos iguala, somos um bando de lobos, de formigas carregadeiras, de abelhas produtivas que não sabe mais viver.  Aí, INHOTIM  nos ensina.

O primeiro convite é uma parada para contemplar a natureza. O segundo, é uma viagem surreal a um mundo de cores vibrantes, de beleza ou severo impacto, contradições como paredes coloridas sem teto.

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INHOTIM é um convite a novas sensações visuais e auditivas.

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Gigantescas pedras de São Tomé demarcam o caminho.

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No meio dos jardins, esculturas, lagos coloridos, esquilos, bancos de troncos centenários…

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INHOTIM é uma surpresa, um reflexo, um espelho, um meteoro, um signo…

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E também, esquilos, patos e peixes…

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INHITIM é um desejo de renovação.

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A primeira vez que tive contato com INHOTIM, este Museu a céu aberto, foi através da reportagem de uma revista estrangeira, cara e especial, quando exclamei: INHOTIM não é deste planeta.

E agora aqui, confirmo esta primeira impressão. Confiram comigo toda esta preciosidade.

A natureza foi cuidadosamente esculpida, acrescida de ideais e movimentos.

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Galeria Lago:

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O vermelho é vedete na Galeria True Rouge

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Destaco  Cildo Meireles – Desvio para o vermelho – esta galeria impactante, este encontro com as paixões que nos habitam, nos alucinam e devoram.

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Também é de Cildo Meureles o Glover Trotter

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Na  Galeria Praça,  as esculturas na parede. Adriana e Ricardo acompanham a dança.

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O navio encalhado na mata abriga a Galeria Miguel Rio Branco. Nela estão 34 imagens do Pelourinho em Salvador- Ba, num encontro com a crueza e a intimidade em ruinas.

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Luiz Zerbeni  exibe o seu ” Amor lugar comum” muito interessante em virtude da repetição de imagens que criam a ideia de profundidade e simetria. São 9 trabalhos sobre o prático pictórico experimental e profundo.

INHOTIM é também um bom lugar para namorar.

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Nossos amigos Ronaldo e Alba fizeram isto:

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O artista Tunga  está na Galeria psicoativa com mostra permanente e com obras ligadas a alquimia e ao corpo humano.

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Aqui, a entrada da Galeria Adriana Varejão com seu lago azul escuro.

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E enfim, subindo e subindo, chega-se ao topo do mundo. Nesta construção arredondada.

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Fora, Ricardo Sísifo continua tentando rolar a pedra.

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Dentro, a vibração do universo. Todos de pernas para o ar, que ninguém é de ferro.

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E era muito azul no tempo infinito.

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E voltando para casa, pelas mesmas pedras do caminho, com a fome apertando, fomos parar  em Brumadinho

após  dois dias de andanças, com a turma toda:

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Foi assim…. Muito surreal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

INVENTÁRIO DE CRETINICES de Ezio Flavio Bazzo

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BAZZO, Ezio Flavio. Inventário de cretinices: ou o prazer de jogar pérolas aos porcos. Brasília: Siglaviva, 2014.

Pensando alto, o escritor Ezio Flavio Bazzo, escreve. Sem dúvida, o mais literário de todos os seus livros. Um livro de viagem onde a alma do escritor se torna a paisagem, os fatos, os episódios, as pessoas. E assim, observando a vida, vai realizando seu inventário de cretinices com aquilo que registra do comportamento humano. Esbanjando cultura, bom humor, e total descontração, e em sua linguagem habitual, nos diz: “ nunca tive notícias na história do mundo, de outro ser que implorasse tanto para seguir existindo, para trabalhar, para ser acorrentado a uma escravidão, a um amor, a um vício, a uma fé, a uma pátria, a uma bandeira, a um frontispício de bordel… que gastasse a vida ingenuamente tentando converter o supérfluo em necessário…”
Inventário de Cretinices é soberbo ( no sentido de estar além) a começar pelo texto das orelhas, com seu alto poder de crítica, onde Bazzo se coloca no lugar do leitor para questionar o que foi escrito e pergunta: “E se estiver certo?”
O livro fala dos anões… Fala sim. É permeado por fotos e referências aos anões, talvez uma homenagem a estes seres olhados como anômalos e severamente discriminados como o são as minorias indefesas. Mas fala com vontade de Marseille, esta região da França que escapa da França tendo o mar e o vento Mistral como aliados. Onde a língua francesa ganha um sotaque mais intenso e marcante, onde a história se acresce de anos de história. O livro fala também da China. Tudo pretexto. Prestem atenção. Anões, China, Marseille são pretextos, porque o livro inteiro transborda mesmo e se centra na perplexidade do autor com o mundo que criamos e a raça humana. E assim ele registra: “ a vida, este ensolarado cativeiro”… “ Como viver num planeta com gente que acredita em milagres?”… “ A dor pisoteia qualquer tipo de revolta, principalmente a infantil e a poética.” …” Condenados a pena de morte antes mesmo de nascerem, os homens passam seus setenta anos embromando”…” Cuidado com poetas e professores”.
Não dá para ler e não admirar esta coragem de dizer o que tantos fazem tudo para camuflar, e assim, ao final do livro só nos resta perguntar:
- E se estiver certo??

Maria Helena Sleutjes