INVENTÁRIO DE CRETINICES de Ezio Flavio Bazzo

Inventário de cretinicesBazzo1

BAZZO, Ezio Flavio. Inventário de cretinices: ou o prazer de jogar pérolas aos porcos. Brasília: Siglaviva, 2014.

Pensando alto, o escritor Ezio Flavio Bazzo, escreve. Sem dúvida, o mais literário de todos os seus livros. Um livro de viagem onde a alma do escritor se torna a paisagem, os fatos, os episódios, as pessoas. E assim, observando a vida, vai realizando seu inventário de cretinices com aquilo que registra do comportamento humano. Esbanjando cultura, bom humor, e total descontração, e em sua linguagem habitual, nos diz: “ nunca tive notícias na história do mundo, de outro ser que implorasse tanto para seguir existindo, para trabalhar, para ser acorrentado a uma escravidão, a um amor, a um vício, a uma fé, a uma pátria, a uma bandeira, a um frontispício de bordel… que gastasse a vida ingenuamente tentando converter o supérfluo em necessário…”
Inventário de Cretinices é soberbo ( no sentido de estar além) a começar pelo texto das orelhas, com seu alto poder de crítica, onde Bazzo se coloca no lugar do leitor para questionar o que foi escrito e pergunta: “E se estiver certo?”
O livro fala dos anões… Fala sim. É permeado por fotos e referências aos anões, talvez uma homenagem a estes seres olhados como anômalos e severamente discriminados como o são as minorias indefesas. Mas fala com vontade de Marseille, esta região da França que escapa da França tendo o mar e o vento Mistral como aliados. Onde a língua francesa ganha um sotaque mais intenso e marcante, onde a história se acresce de anos de história. O livro fala também da China. Tudo pretexto. Prestem atenção. Anões, China, Marseille são pretextos, porque o livro inteiro transborda mesmo e se centra na perplexidade do autor com o mundo que criamos e a raça humana. E assim ele registra: “ a vida, este ensolarado cativeiro”… “ Como viver num planeta com gente que acredita em milagres?”… “ A dor pisoteia qualquer tipo de revolta, principalmente a infantil e a poética.” …” Condenados a pena de morte antes mesmo de nascerem, os homens passam seus setenta anos embromando”…” Cuidado com poetas e professores”.
Não dá para ler e não admirar esta coragem de dizer o que tantos fazem tudo para camuflar, e assim, ao final do livro só nos resta perguntar:
- E se estiver certo??

Maria Helena Sleutjes

ACERVO RARO – A BIBLIOTECA DE MURILO

DSCN3850[1]-3

O Informativo O PALCO ( v.6, n.41, ago, 2014) da Pró-reitoria de Cultura da UFJF, foi publicado um resumo do artigo de Maria Helena Sleutjes, Lucilha Magalhães e Bruno Defilippo Horta sobre a Biblioteca do Museu de Arte Murilo Mendes.

Abaixo segue foto e texto do artigo:

DSCN3851[1]1-3

Existe na Universidade Federal de Juiz de Fora um espaço privilegiado que abriga uma coleção de livros muito especial – A biblioteca do Museu de Arte Murilo Mendes, guardiã do acervo particular de livros do poeta juiz-forano Murilo Mendes, e alguns outros acervos de importância para a vida cultural da cidade. Um local destinado ao estudo e à pesquisa sobre a vida e obra de Murilo Mendes e demais áreas de interação com esta interface literária e artística.

O acervo Murilo Mendes não é muito vasto, mas nele estão representados todos os campos de interesse daquele que foi seu proprietário. E, nesses campos, há livros que chamam a atenção de modo especial, como um belo conjunto de livros sobre Mozart que expressa o gosto do escritor e suas preferências como leitor.

Além do acervo Murilo Mendes, outros acervos foram incorporados à Biblioteca como é o caso dos acervos de João Guimarães Vieira (Guima), Arthur Arcuri, Gilberto e Cosete Alencar e Cleonice Rainho.

Há mais de quatro séculos, os livros vêm testemunhando a evolução científica, social, cultural e literária da humanidade e muitos deles, especialmente por sua importância histórica, tornaram-se obras raras ou preciosas. O que é livro raro? É uma questão difícil de responder, pois envolve fatores e circunstâncias subjetivos, mas pode-se dizer que obras raras são aqueles livros de que se conhece reduzido número de exemplares e que além do valor de seu conteúdo (científico, social, cultural), apresentam outras características que os tornam objeto do desejo de outras bibliotecas ou colecionadores. Sob este aspecto o acervo Murilo Mendes pode ser considerado um acervo raro.

Entre os livros que compõem este acervo, há um grande número que contém dedicatórias de escritores estrangeiros e brasileiros para o poeta. Dedicatórias de Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Mário de Andrade e outros. Destacamos aqui registros destes dois últimos: “A Murilo Mendes, lembrança amiga de Mário de Andrade. São Paulo, 1941” (in ANDRADE, Mário de. Poemas. São Paulo: Livraria Martins, 1941. “Ao Murilo, com a velha amizade e admiração do Vinícius. Rio, Agosto de 1938” (in MORAES, Vinícius. Novos poemas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1938.

Mas talvez, o que mais chame a atenção nos livros desta biblioteca sejam as marcas neles deixadas pelo poeta. Na maioria dos livros, frequentemente se encontra trechos assinalados por ele nas margens. Em suas anotações, quase sempre feitas à lápis, Murilo Mendes anotava números de páginas e uma breve indicação do que chamava sua atenção, compondo uma espécie de “índice remissivo” para seu uso. Há também listas de palavras, formando algo como um vocabulário próprio. Chama também a atenção, o conjunto de várias edições de livros de Camões, todas marcadas e anotadas por Murilo Mendes. Na edição portuguesa de Os Lusíadas, à página 324, na estrofe 103, Murilo Mendes coloca uma interrogação no oitavo verso, logo abaixo acrescida de uma legenda: “não é decassílabo”. Ao final do livro, encontra-se a anotação “324 – errado”, em referência ao erro encontrado pelo poeta na metrificação do referido verso.

Na bibloteca, de um modo geral, existem excelentes livros sobre artes plásticas e, claro, sobre a área em que o poeta juiz-forano foi reconhecido nacional e internacionalmente, que é a literatura. Vale muito a pena conferir!

Maria Helena Sleutjes – escritora
Lucilha Magalhães – historiadora
Bruno Defilippo Horta – professor

LAURA SANDRONI FALA SOBRE CECÍLIA MEIRELES

images

Na noite do dia 08/09/2014, no Museu de Arte Murilo Mendes, a escritora LAURA SANDORNI, apresentou uma palestra sobre CECÍLIA MEIRELES, com quem conviveu de perto, trazendo relatos muito interessantes e particularidades do pensar da grande poetisa. E eu fiquei ali, admirada por ver que a Laura, por quem sempre nutri grande admiração, me trouxe de volta a Biblioteca Nacional e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil no Rio de Janeiro, esta última, entidade que ela fundou, organizou e dirigiu com maestria. Admirada também, por ver que o tempo não esgarçou a fibra, a determinação, a coragem desta mulher inteligente, sensível e capaz, que é a LAURA SANDRONI.

Foto0077

A CECÍLIA MEIRELES que nos foi apresentada por LAURA SANDRONI tinha voz, tinha atitude, pensamentos, cuidados, uma história de vida permeada de poesia e amor pela vida. Laura nos falou da CECÍLIA MEIRELES que lutou engajadamente por uma melhor qualidade da educação no país, que fundou e dirigiu uma biblioteca infantil que era mais que um sonho, era uma esperança para educadores, escritores e bibliotecários. Algo que poderia ter mudado as futuras gerações de tivesse se propagado.

Além disso, ela nos trouxe outra vertente dos dons de Cecília Meireles – as artes plásticas. Quadros pintados por Cecília representando figuras femininas de rara beleza.

Foto0075 (1)

Apresentada pela nossa querida LEILA BARBOSA, responsável por sua vinda, com um belo texto, resumo fantástico da vida inteligente, produtiva e interessante desta mulher admirável – LAURA SANDORNI. Vejam o que disse LEILA BARBOSA:

“Muito me honra ter sido a escolhida para apresentar nossa palestrista de hoje, pessoa tão importante no cenário da literatura brasileira. E também muito me alegra por termos uma amiga comum, querida, notável e significativa representante da literatura de nossa Juiz de Fora – Rachel Jardim.
Laura Sandroni, nascida Laura Constância Austregésilo de Athayde, é jornalista, bacharel em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas; mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ; especialista em Literatura Infantil e Juvenil. Foi Secretária da Diretoria da Casa do Estudante do Brasil. Em 1968, participou do grupo que criou a famosa Fundação do Livro Infantil e Juvenil, instituição pioneira no estudo e na divulgação da literatura para crianças e jovens no Brasil, filiada ao International Board on Books for Young People, órgão da UNESCO. Laura Sandroni dirigiu a Fundação por 16 anos. Trabalhou na Fundação Roberto Marinho, no núcleo de estímulo à Leitura, em projetos como Ciranda de Livros. Manteve coluna semanal no jornal O Globo de crítica a livros destinados a crianças e jovens. E, hoje, aposentada, presta serviços avulsos à FNLIJ como júri do seu prêmio Hans Christian Andersen e nas aulas dos cursos contratados pela Secretaria Municipal de Educação. Tem relação com Minas Gerais, pois foi seu avô – Queiroz Jr. – quem inaugurou a primeira usina siderúrgica do Brasil, Usina Esperança, em Itabirito, MG.
Em 1987, recebeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte); em 1999, o Prêmio José Ermírio de Morais da Academia Brasileira de Letras e, em 2006, em Bolonha, na Feira do Livro Infantil e Juvenil o título de Membro Honorário do International Board on Books for Young People, sendo a primeira especialista da América Latina a recebê-lo.
Publicou ensaios nas principais revistas e jornais especializados em literatura infantojuvenil no Brasil e no exterior. Publicou livros para adultos, como De Lobato a Bojunga, as reinações renovadas. 1987. (dissertação do mestrado em literatura brasileira); A Criança e o livro: guia prático de estímulo à literatura. (org. com Luiz Raul Machado) 1986; Austregésilo de Athayde, o século de um liberal. Com Cícero Sandroni em 1998. Para crianças e jovens, publicou, entre muitos, Grandes poemas em boca miúda, com Luiz Raul Machado, 2001; coordenou a Série Novas Seletas, com 8 títulos de diferentes autores, de 2001 a 2005; Acadêmicos autores de Literatura Infantil e Juvenil, ABL 2012; Organizou O roubo da varinha de condão e outros contos de Nora Rónai, 2013. Fez várias traduções de Espanhol de livros para adultos e para crianças
É casada com Cícero Sandroni, que foi, como seu pai, presidente da ABL e, com o qual tem cinco filhos. E, por fim, antes de passar a palavra para ela, não podia deixar de assinalar mais uma de suas grandes qualidades, pois ela possui uma linda e maviosa voz, já tendo um disco gravado com o grupo do qual fazia parte “Cantoras de Chuveiro”.

No clik de ANA MIRANDA temos abaixo LAURA SANDORNI entre seus novos amigos juiz-foranos: Alessandra Branco, Maria Helena Sleutjes, Marisa Timponi, Dilermando Rocha ( presidente da Academia Juiz-forana de Letras), Laura Sandroni e Leila Barbosa.

10665203_540442766088510_1867360510395333892_n

E o Café com Poesia ( e Arte) representado por seus integrantes:

1513175_540441636088623_536606096178868383_n

Ana Miranda, Marisa Timponi, Maria Helena Sleutjes e Lázara Papandrea.

10345769_540441332755320_6584244687691728545_n

Maria Helena Sleutjes e Lázara Papandrea.

Foi assim…

PENELOPE (22)

mIRIAM gALDIANO sÁNCHEZ

Saiu bem cedo a procurar palavras novas.Todas as que tinha estavam gastas de terem sido usadas;
encardidas de terem sido vistas, ditas, sussurradas, descritas.
Alcançou o mar, lá onde o silêncio se alonga, lá onde as Nereidas ganham formas.
Lá, onde o vento sopra e encapela as ondas, onde o tempo sempre vem e aplaina o oceano.
Lá, onde as estrelas mergulham no espelho dos sonhos, e a lua se banha na desesperança.

[ Imagem de Miriam Galdiano Sanchez]

UMA CARTA PARA THEODORO E MARINA.

10363942_486256618173792_5371214185655517821_n

Neste depoimento recebido pela Claudia Freire Lima, um leitor do livro Theodoro e Marina: cartas para sentir a infância, chamado CLAUDIO, conversa com os personagens do livro e entra na trama desta correspondência de forma a nos trazer muita alegria! Obrigada CLAUDIO!

Eis a carta do CLAUDIO para THEODORO E MARINA:

” Oi!
Meu nome é Claudio (tem mais, mas acho que isso não interessa). Conheço o nome de vocês: Marina e Theodoro, ou, para ninguém achar que gosto mais de um do que do outro, Theodoro e Marina. Está bem assim? Vocês vão se perguntar: mas como ele conhece o nome da gente? Ah, isso também não importa muito.
O que importa é que sinto que tenho algumas coisas em comum com vocês, por exemplo, eu moro no planeta Terra, gosto de brincar, escrever poesia, fazer muitas perguntas sobre coisas que as pessoas às vezes não dão muita bola (“Quando quebra por dentro ninguém ajuda, socorre, ninguém engessa, porquê né?), acho a amizade uma coisa deliciosa e sinto que viver é tão bom!
Mas tem uma coisa: eu sou adulto, ou melhor, me chamam de adulto, e vocês são crianças, ou melhor, chamam vocês de crianças. Mas, querem saber? Acho esse troço de ser chamado disso ou daquilo uma grande bobagem. Minha avó dizia que amor não tem idade, eu não entendia bem porque ela me repetia isso tantas vezes. Acho que hoje, lendo umas cartinhas que uma amiga me deu de presente, eu entendi prá valer o porquê (minha professora me ensinou que é feio escrever prá, que o bonito é para, mas acho que prá faz um barulhinho tão gostoso!).
Amar, seja a gente chamado de criança ou adulto, é a única coisa que não sai de moda, não envelhece, tem valor para sempre, acho que é isso que minha avó queria dizer. Eu escrevi uma poesia, um dia eu mostro para vocês, que termina assim: “O amor é o triunfo do tempo sobre si próprio”. Se vocês gostaram muito bem, se não gostaram, muito bem também. O que vale é que eu achei vocês muito fofos e que, dentro do meu coração, vocês são e serão meus amigos para sempre, pouco importa se vocês vão dar bola para o que eu escrevi ou não.
Tchau!
Claudio (meu pai me chamava de Cacau, podem me chamar também)

Psiu: Eu também não gosto que joguem lixo fora do lixo. Quando vejo alguém jogar papel no chão falo bem assim: olha, você deixou cair uma coisa. Às vezes me olham com uma cara feia, mas outras, ficam envergonhados e recolhem o papel. A gente tem mesmo que cuidar do planeta. Pode ser que o mundo não seja do jeito que a gente quer, mas se a gente não cuidar com carinho, o que vai ser dele? Ah, outra coisa: adorei esse psiu! ”